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28/6/2010 - MERCADO FAVORECE AÇÕES DE INCORPORADORAS

As ações de empresas ligadas ao ramo imobiliário, que sofreram fortes desvalorizações em razão da crise financeira de 2008, voltam a ter um bom momento. Na avaliação de analistas, tudo indica que ingressaram num circulo virtuoso que promete durar vários anos.



Lázaro Evair, para o Valor, de São Paulo 28/06/2010

As ações de empresas ligadas ao ramo imobiliário, que sofreram fortes desvalorizações em razão da crise financeira de 2008, voltam a ter um bom momento. Na avaliação de analistas, tudo indica que ingressaram num circulo virtuoso que promete durar vários anos.

A estimativa dos especialistas é de que os papéis, que já apresentam forte recuperação - há casos de altas superiores a 100% no acumulado de doze meses até maio -, terminem o ano com excelentes resultados. Mas o período de maior rendimento para os investidores ainda está por vir: estima-se que a partir de 2014, as empresas passem a pagar expressivos volumes em dividendos.

A explicação dos analistas é a seguinte: devido ao longo ciclo de maturação dos projetos, os desembolsos destinados à construção se intensificam no início das obras. Quando estas são entregues, as despesas diminuem e os pagamentos dos financiamentos suplantam os custos, reforçando o caixa das empresas. Daí a perspectiva de elevados dividendos por volta de 2014, quando boa parte dos lançamentos do período posterior às grandes aberturas de capitais esteja dando retorno para as companhias e seus acionistas. "As empresas do setor estão mais disciplinadas financeiramente e capitalizadas, fatores que contribuem para as boas perspectivas futuras", sustenta Flávio Conde, analista da Gradual Investimentos.

Os especialistas ainda lembram que o setor tem boas perspectivas no médio prazo por ser pouco sensível às oscilações cotidianas das taxas de juros, uma vez que os contratos são balizados por TR, e por estar numa área de demanda constante devido ao crônico déficit habitacional brasileiro. "Além de tudo isso, ainda existem algumas empresas cujas ações estão com preços bastante convidativos para quem planeja incluir papéis de incorporadoras em suas carteiras", comenta Conde. A seu ver isso também serve de estímulo para incrementar as ações do segmento.

A existência de ações ainda com preços convidativos é confirmada por levantamento feito pela Dextron, consultoria especializada em planejamento estratégico. Segundo o estudo, o crescimento acelerado das empresas de construção desde 2009 não foi acompanhado pela valorização das ações na mesma proporção. A consultoria apurou que o valor de mercado de todas as empresas negociadas na bolsa caiu de R$ 48,1 bilhões, no fim de 2007, para R$ 40,7 bilhões, no fim de março deste ano. "Há casos de empresas cujo valor de mercado recuou para a metade no período", informa Maurício Kerbauy, consultor da Dextron.

Alguns especialistas lembram que os papéis de incorporadora podem ganhar impulso devido ao estímulo dado aos empreendimentos voltados ao chamado segmento econômico ou popular. Várias empresas foram formadas especialmente para atuar nessa área, como é o caso da Living Construtora, criada pela Cyrela. Outras, com forte presença nesse segmento foram incorporadas, como é o caso da Tenda, que passou a fazer parte do grupo Gafisa.

Todos esses movimentos de mercado também funcionam como fator adicional de reforço do bom momento vivido pelo ramo da construção, ampliando igualmente as possibilidades de ganhos no mercado acionário. "Acrescente-se ainda a uma demanda historicamente reprimida, a necessidade de se construir casas anualmente para pessoas que, por casamento, separações ou mudança, necessitam de nova moradia", observa Gilberto Nagai, analista do BNP. Esse contingente amplia anualmente o déficit habitacional, que é estimado por especialistas da área em aproximadamente 7 milhões de novas moradias.

Em razão dessa realidade, a maioria dos analistas entende que a continuidade dos programas governamentais de construção e financiamento de casa própria, sobretudo para as famílias de menor poder aquisitivo, não será afetada em função das eleições presidenciais. "Seja qual for o futuro presidente da República, essa é o tipo da iniciativa que não tem volta", diz Nagai. "As perspectivas do setor imobiliário são bastante animadoras e, em consequência, os papéis negociados na Bolsa devem fazer parte da carteira dos investidores."

Uma análise igualmente tranquilizadora dos especialistas é em relação a possíveis interferências de solavancos na economia internacional. Eles entendem que só haveria alguma complicação caso a confiança do consumidor venha a ser afetada.

A preocupação maior não está no tocante a capital ou falta de demanda, mas sim em relação à capacidade de execução dos projetos. "Percebo que, especialmente no segmento dos imóveis destinados à classe econômica, que envolve um volume maior de unidades, há uma incerteza quanto à capacidade de gerenciamento da execução das obras", afirma o analista Guilherme Vilazante, do Barclays. Em sua opinião, existem dúvidas quanto à capacidade gerencial das companhias em administrar volume tão grande de obras.

Jornal Valor Econômico - Comunicação de Valor - Data da Publicação: 28/06/2010
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